Homilia de Dom Eraldo no encerramento do Jubileu Extraordinário da Misericórdia

Caríssimos irmãos e irmãs,

Padres, Diáconos, Religiosos e Religiosas, Seminaristas, lideranças das comunidades e paróquias, pastorais, serviços e movimentos todos promotores e promotores da ação evangelizadora de nossa Igreja e autoridades presentes nesta celebração de Cristo Rei na qual encerramos, em comunhão com toda a Igreja, o Jubileu extraordinário da misericórdia, ou seja, o Ano Santo  Misericórdia,  a minha fraterna e acolhedora saudação a todos e a todas!

Na liturgia deste Domingo quando a Igreja proclama que Jesus é o Rei do Universo, concluímos o ano litúrgico de 2016 e já nos dispomos à preparação sempre necessária e renovada para celebração do Natal do Senhor e para isso faremos o caminho do Advento para de forma sempre nova acolhermos aquele que vem para nos salvar.

Jesus é o Rei de nossas vidas, da nossa história. Aquele que salva doando a própria vida. Ele mesmo disse: “O meu reino não é deste mundo”. A experiência de rei que nós temos não faz ressoar bem aos nossos ouvidos este título mesmo que seja dado ao próprio Jesus, pois os reis que conduziram os destinos da humanidade, mesmo os bíblicos, nem sempre se portaram em favor da vida e não raramente oprimiram e fizeram do trono do poder o seu motivo maior para assim se apresentarem ao mundo e até justificarem  seus atos nada atraentes aos olhos da justiça de Deus.

Olhemos para Jesus e vejamos se há sentido positivo nesta afirmação bíblico – teológica:  “Jesus é rei”. Qual foi o trono de Jesus? A Cruz! Qual foi a coroa de Jesus? A de espinhos? Qual o território conquistado? A salvação da humanidade! Qual foi a ordem pertinente? O serviço!

Vale a pena recordar pequenas falas de Jesus: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos; Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância; Eu sou o Senhor e vos lavei os pés; Quem quiser ser grande seja aquele que serve; eu sou o bom Pastor e o bom pastor dá a vida por suas ovelhas”…

Queridos irmãos,  assim meditando sobre o agir de Jesus, poderemos afirmar com toda a segurança que Jesus é o Senhor e rei da nossa vida. O seu reinado de justiça, de serviço e de paz.

Temos a alegria de adorar e louvar o Deus da Vida que se faz pequeno, que se aniquila como que se desmanchando de amor por todos nós. Ele é o Rei compassivo e misericordioso e o seu poder nos alcança não para criar feridas, mas para que aquelas que foram abertas pelo pecado e por tantas outras circunstâncias sejam fechadas.

Amado povo de Deus, hoje nós estamos no mesmo altar da Igreja em que está o Papa Francisco celebrando a conclusão do Jubileu extraordinário da Misericórdia.  Jubileu que o mesmo pontífice proclamou no dia 08 de dezembro do ano passado e recomendou a sua conclusão para esta solenidade de hoje. A nossa diocese, obediente às palavras do Papa que definiu um programa para o cumprimento deste jubileu, abriu várias portas chamadas “Santas” nas várias regiões que chamamos de Foranias. Em cada Forania podemos oferecer uma possibilidade de proximidade na vivência deste jubileu.  Foram muitas as peregrinações individuais, de grupos e de pastorais que se dirigiram às portas Santas e lá rezaram, se confessaram ,comungaram o corpo do Senhor e rezaram pelo Santo Padre e assim obtiveram os ricos e celestiais favores prometidos que chamamos de indulgências.

Concluir o ano da misericórdia não é “terminar com a história da misericórdia de Deus” como se fosse apenas um procedimento de um plano pastoral, mas é assumir daqui pra frente o jeito misericordioso de Deus agir conosco, que meditamos, rezamos e até praticamos de tantas formas neste período de intensa vivência do jubileu.

Entre outras finalidades o Jubileu quis reacender o tema da misericórdia que, conforme o Papa João Paulo II, quando escreveu a Encíclica Dives in misericórdia”, tornara-se ao longo da história como que esquecido pela humanidade e pela Igreja. Este período deixa para nós a clareza  sobre o modo de Deus ser e agir e nos impele a sermos uma Igreja que entende a misericórdia como um dom e como uma missão. Ao mesmo tempo que age misericordiosamente conosco, o Senhor no ordena “ misericordies sicut  pater”, isto é, “misericordiosos como o Pai”.

Aqui podemos abordar como prática do ano da misericórdia o temas das obras de misericórdia espirituais e corporais.  O Santo Padre deu de presente à Igreja no encerramento deste ano Santo uma “Carta apostólica” intitulada “Misericordia et mísera” – Misericórdia e pobreza. Nesta carta o Santo Padre pede a todos que aquilo que aprendemos por meio deste jubileu nos leve sempre mais ao encontro dos que sofrem dos empobrecidos, caídos e esquecidos da sociedade. Aqueles que o sistema exclui e mata aqueles e aquelas que perdem as possibilidades de uma vida digna por causa da ganância, do preconceito, da indiferença, da falta de solidariedade e de compaixão. A pobreza como miséria é fruto da absolutização do poder como fonte de enriquecimento de grupos das minorias privilegiadas em detrimento das condições dignas para a vida das maiorias, isto é, dos pobres.

Quero como Bispo Diocesano, elucidar a necessidade intensificar a nossa ação pastoral e evangelizadora seguindo este caminho de encontro e de aproximação das realidades de dor e de sofrimento ou de inúmeras carências sofridas pelo nosso povo, nas periferias geográficas e também da condição humana que são territórios onde a igreja deverá instalar-se como hospital de campanha e ali exercer o dom misericordioso de Deus como uma missão. Vejo muitas possibilidades concretas para a prática das obras de misericórdia: Pastoral dos Enfermos, Pastoral da Esperança, Pastoral da Pessoa Idosa, pastoral da Criança, Pastoral Carcerária, Pastoral do Menor, Cáritas, Ação Social Diocesana; sem esquecer o engajamento dos leigos e leigas na promoção das políticas públicas como forma de promover a vida para os mais necessitados e que vivem em situações de risco e de vulnerabilidade social. Abracemos em nossos planejamentos esta dimensão do serviço e da caridade como gestos permanentes da misericórdia de Deus que reacendemos em nosso coração por ocasião do Ano santo que ora concluímos.

Meus irmãos e minhas irmãs, não poderia concluir esta homilia sem mencionar o contexto político que no momento nos angustia e nos preocupa como pastor e rebanho.  Vivemos uma grande inquietação a partir de uma ação do atual governo federal que busca e infelizmente encontra o apoio dos parlamentares estaduais e federais. Trata-se da polêmica e perigosa PEC 55 – na sua classificação atual. Quando falamos de solidariedade, de misericórdia para com os sofredores não podemos aceitar que iniciativas como esta ainda que “legal”, porém contra a promoção da vida e de suas condições básicas, sejam aprovadas. Por isso em comunhão com o episcopado brasileiro, reafirmo a necessidade de uma mobilização tranquila e responsável no sentido de impedirmos como povo brasileiro a concretização deste mal, desta ofensa, desta morte para o nosso país, principalmente para as classes desfavorecidas e tão sofridas. Não podemos deixar que sejam congelados  de forma perversa os sonhos de tantos jovens que precisam construir uma vida sem travas e sem medos. Conclamo as comunidades e os movimentos sociais para uma reação lúcida e corajosa, sem violência e sem medo. Não podemos esquecer que os nossos parlamentares têm a obrigação moral e política de reverterem o quadro desastroso que está sendo estampado em nossa sociedade brasileira. Peço que os nossos deputados paraibanos, patoenses – de modo particular – fiquem do lado do povo que lhes confiou o seu destino com esperança de dias melhores.

Certamente a Porta Santa da misericórdia nunca estará fechada, pois Deus nunca se cansa de perdoar. Embora simbolicamente cerramos a porta santa, temos a certeza de que a compaixão de Deus está brotando do seu coração como um rio que não seca jamais. Deposito nas mãos de Deus e na proteção de nossa Senhora a nossa diocese, nossos agentes e todas as iniciativas que  dependerão do nosso serviço para que tudo seja para o bem do Reino da paz e da justiça.

Faço aqui um agradecimento particular aos embaixadores da misericórdia por meio do ministério da reconciliação exercido com zelo por todos os nossos padres que incansavelmente acolhem os penitentes que buscam o bálsamo da compaixão e do perdão de Deus. (Aplausos). Entrego ao coração compassivo de Jesus todas as pessoas e situações que estão no meu coração de pastor e que precisam de luzes para seguir o caminho. Finalmente agradeço a todos e todas que mostraram através de palavras e de atitudes concretas o rosto misericordioso de Deus no seu modo de viver como Igreja de Jesus, o rosto misericordioso do Pai.

Nossa senhora da Guia, mater Misericordiae, nos acompanhe sempre na estrada do seu filho Jesus. Amém.

Dom Eraldo Bispo da Silva

Bispo Diocesano

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